Não acho que a Ucrânia possa entrar na OTAN. É triste mas verdade. O idiota Putin impede isso. Por que “idiota”? É uma palavra muito forte. “Idiota”, porque o ex-agente da KGB está acorrentado a uma percepção geopolítica anterior à aviação supersônica e aos foguetes. Sua visão é de quando o mundo estava dividido em zonas de influência e fazia sentido cercar as nações com uma casca aparentemente impenetrável. Hoje foguetes supersônicos e armas nucleares, aos quais se soma o comércio internacional (por causa das “sanções”), tornam obsoleta a antiga visão das relações internacionais.
A Primeira e a Segunda Guerras Mundiais (a Segunda Guerra foi uma simples derivação da Primeira) foram objeto da mesma visão equivocada, mas não há mais o direito de errar. Afinal, a aviação estava em sua infância em 1914 quando o arquiduque Ferdinando, herdeiro do império austro-húngaro, e sua esposa Sofia Chotek foram assassinados em Sarajevo, o início sombrio do conflito que deixou 50 milhões de mortos, três impérios desmantelados – o Austro-alemão, o russo e o turco – e um quarto, o britânico, lentamente desapareceu.
O que resta para a Ucrânia fazer se não puder entrar na OTAN? Construir armas atômicas, como a Coreia do Norte fez. Donald Trump não poupou a vida de Kim Jong-un por simpatia, mas porque não queria correr o risco remoto de um bombardeio cair em Nova York, São Francisco, Chicago ou Miami. Se a Ucrânia tivesse armas nucleares, outro galo cantaria, como aconteceu até a década de 1990.
Naquela época, eles foram devolvidos a Moscou por meio de um acordo do qual o Reino Unido e os EUA eram fiadores. Putin não ousaria arriscar Moscou ou São Petersburgo pela má ideia de invadir a Ucrânia. Esquece-se que a Ucrânia era o terceiro país do planeta com o maior número de ogivas nucleares: 1.900. Se ele tivesse guardado apenas uma dúzia, o quadro seria diferente. Claro que, depois de gerar essa devastação, a Ucrânia seria absolutamente destruída, mas a Rússia também seria muito afetada.
Não sei como os “think tanks” russos não percebem que a OTAN é um clube onde a “proliferação de armas nucleares” é proibida. Aqueles que os têm (EUA, Inglaterra e França) não têm interesse em que outros países os tenham. Se eu fosse o conselheiro de Putin, diria a ele que a Ucrânia está melhor dentro da OTAN do que fora dela. O mesmo acontece com as nações que constituíam a casca que supostamente protegia a URSS: Polônia, República Tcheca, Eslováquia (Tchecoslováquia), Romênia, Bulgária e os três países bálticos, todos intelectual e economicamente capazes de fabricar armas nucleares.
Tenho como certo que Vladimir Putin não quer retornar ao estágio coletivista da Rússia. Suponho que, na realidade, ele renunciou ao marxismo. Lembro-me que nos anos noventa a metáfora do “aquário” e da “sopa de peixe” era usada para afirmar que era muito difícil voltar ao estágio capitalista. Lembro-me também da fila de necessitados, quase todos idosos, com uma garrafa de vodka na mão, tentando vendê-la; ou o fato de o “Uber”, sem aplicativo, ter sido inventado em cidades russas, onde bastava parar um veículo e alugá-lo para levá-lo a algum lugar por um preço muito modesto.
De alguma forma, a metáfora do “aquário” e da “sopa de peixe” continua válida. Quase ninguém quer voltar ao coletivismo. De fato, foi muito difícil devolver à sociedade e ao mercado a capacidade de produzir, com as inevitáveis diferenças que são geradas, e o fato de que, efetivamente, há perdedores e vencedores no modelo capitalista de produção. Isso tem a ver com o caráter do empresário, com os estudos, com a família que se tem, com os contatos, com os valores, com a moeda em que realizam as transações, mesmo com sorte, e com o resto os fatores que afetam os resultados. Às vezes são tão injustos quanto a aparência, incluindo raça, preferência sexual, gênero e peso e tamanho do operador econômico. Não obstante,
Quando visitei Moscou, ouvi muitas vezes que “o peso da URSS deve ser removido da Rússia”. Achei um slogan muito inteligente. Ni USA, ni el resto del “mundo libre”, y es igual lo que eso signifique, tienen otro peso que el de la propia “calidad social” con que cuentan, lo que significa que millones de personas intentan ingresar en esos países a como de lugar. Quando Putin vai descobrir que matando chechenos, abecásios ou ucranianos ele não vai construir ou reconstruir nada, exceto seu próprio fracasso? Só por isso ele merece o título de idiota.
Publicado em elblogdemontaner.com domingo, 27 de março de 2022.
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