Nos anos sessenta, nos ônibus e trens de Roma, costumávamos assistir a discussões entre passageiros sobre o passado, presente e futuro da Itália, nas quais era comum ouvir uma pergunta ou afirmação ¿Fascisti erano tutti? ou ¡Tutti erano fascisti! Também foram pronunciadas na “Universita degli Studi di Roma”, com a preocupação de quem veio de outros países em busca de aprender algo mais, pois os processos judiciais levaram ao fechamento das respectivas faculdades.
Não deixou de alarmar, então, que a história concebesse o “Império Romano” como “a estrutura sócio-política mais extensa do Ocidente”, o que levou o imperador Diocleciano, para superar as dificuldades de governá-lo a partir de Roma, a criar um no Oriente e outro no Ocidente. Mas, também, como admiradores da profunda influência cultural de Roma, supunha-se que “o fascismo de Benito Mussolini”, como o de seu “camarada” Adolph Hitler na Alemanha, havia sido esquecido como uma lenda da qual o mundo, sem exceções, ele jurou que isso nunca mais aconteceria. Quem se lembrou daquele triste capítulo da humanidade se humilhou e desprezou quem se descobriu como seu promotor. E com os piores epitáfios.
Nos países da América Latina até então, gerou-se o que Samuel Huntingdon, de sua cátedra de Harvard, acabou chamando de “ondas democráticas”, identificadas como “mudanças repentinas no que diz respeito à distribuição do poder entre as grandes potências, o que cria tanto oportunidades quanto incentivos introduzir reformas radicais” a favor do respeito pela soberania e pelas liberdades civis. Isso justifica que aqueles de nós que tiveram a boa ou a má sorte de ouvir essas discussões e desmentidos ou confirmações sobre o fascismo opróbrio, fomos surpreendidos pelos processos usuais dos italianos. Parecia simplesmente inédito.
Mas a história é surpreendente, porque quase quatro décadas depois, ou seja, em 2022, a Itália, um dos países mais politizados do globo, sacrifica Mario Draghi, como primeiro-ministro, diante do olhar de angústia que Sergio Mattarella deve ter expressado, eleito presidente para um segundo mandato pelo Parlamento e representantes regionais em sessão conjunta, de acordo com a Constituição. A “Península” não escapou à metodologia tradicional de uma Assembleia Constituinte eleita pelo povo, direta ou indiretamente, para a elaboração da “Lei Suprema”. Suas “Disposizioni transitorie e finali” deixam para trás a monarquia para uma “Republica”, a hipotética abolição do partido fascista e o exílio da “família real”. Nenhuma pessoa foi legitimada, mais pelo contrário, recaiu sobre toda a proibição constitucional de aspirar a qualquer hierarquia monárquica. Os italianos, deve-se levar em conta para entendê-los bem, que ao longo das discussões entre eles eles expressam verbalmente um desacordo, mas no final acabam se entendendo. E apesar da complexidade e peculiaridades do regime político que os rege.
O cenário, pode-se afirmar, parece revelar que “o fascismo tem vida eterna. Nunca morre”. Recentemente, de fato, manifestantes da extrema direita e herdeiros de Benito Mussolini tomaram o Palácio do Governo em uma atitude como a que ocorreu há pouco tempo perto do Capitólio nos EUA, com ataques à polícia, gás lacrimogêneo, violência desencadeada e invadiu a sede do principal sindicato na Itália, que eles deixaram destruídos. Isso aconteceu na frente da barba do ainda primeiro-ministro Draghi e do próprio chefe de Estado Mattarella. Provas e não conto para afirmar Tutti erano fascisti! E talvez, muito mais adequado nos perguntarmos e até com surpresa: Fascisti erano tutti? Hoje a velha Roma chorava, a apreciação pertinente recorrendo a metáforas.
Mas o mais preocupante é que o capítulo não termina com essas primeiras lágrimas, já que os italianos acabam de votar na elegante Georgia Meloni como primeira-ministra, ligada a Matteo Salvini, talvez a ultradireita mais velha da Europa. O jornalista catalão Daniel Verdu, ao se referir a esta última, questiona a violência, mas defende a razoabilidade de cuja saúde, direitos, liberdade e trabalho devem ser protegidos. O giornalista acrescenta que se trata do reiterado raciocínio de Salvini na tentativa de superar a perda de apoio da extrema direita. Não é descartável, portanto, se perguntar, diante de tanta confusão, se a dupla “Giorgia & Matteo” não começa a gritar do próximo governo vencido por Meloni: Heil Hitler! Não sabemos se o grito seria acompanhado pelo “levantamento do braço direito”.
A contradição, evidente. Bem, como lemos, a Itália em nível regional é a terceira maior economia da “zona do euro” e “a oitava” maior do mundo. Apesar de uma dívida externa de US$ 1989 milhões, aproximadamente.
A BBC destaca que Giorgia Meloni é a primeira primeira-ministra de extrema-direita, depois de Benito Mussolini. E Marco Masillo, presidente da região de Abruzzo, afirmou que tem a coragem de um leão!
A Itália, apesar de seus arrependimentos, parece ter sorte de que tudo esteja indo bem para ela. Não é mais uma esperança.
Ironicamente, talvez por isso, um italiano responde assim quando perguntado sobre sua terra:
¡E un dissatro, pero si mangia molto bene!
@LuisBGuerra
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